Saltar para o conteúdo

Escrita

A régua com que escolho o que automatizar chumbou o meu melhor trabalho

3 min de leitura

A 11 de agosto escrevi uma régua para decidir que processo automatizar primeiro. Nessa tarde pontuei com ela a automação que escreve os meus carrosséis, e a régua chumbou-a. Zero num dos três eixos, veto automático.

O eixo estava errado. Trocá-lo levou uma tarde, e é o que interessa contar — a régua corrigida está toda aqui em baixo, e dá para pontuares um processo teu enquanto lês.

Três eixos, 0 a 2 cada

Frequência. Quantas vezes o fazes.

  • 0 — algumas vezes por ano
  • 1 — todas as semanas
  • 2 — todos os dias, ou várias vezes por semana

Dor. Quanto custa cada vez.

  • 0 — minutos, e sai sem pensar
  • 1 — rouba tempo a sério, ou obriga a interromper outra coisa
  • 2 — já o adiaste esta semana, ou já saiu errado por ser feito à pressa

Repara na régua da dor: adiamento e erro, nunca minutos gastos. Um processo que demora meia hora e sai sempre bem incomoda menos do que um de dez minutos que já foi entregue errado duas vezes.

Verificação. Consegues rever o resultado antes de ele contar.

  • 0 — a decisão sai sem ninguém a ver, e desfazê-la é cara
  • 1 — revês por amostragem, ou o erro só aparece tarde
  • 2 — revês tudo antes de contar, ou desfazer sai barato

Soma os três. De 5 a 6, automatiza já, porque cada semana à espera é a mesma dor outra vez. De 3 a 4, automatiza e revê tudo antes de sair, que as exceções ainda te vão aparecer. De 0 a 2, deixa estar — a manutenção custa-te mais do que o processo.

O veto

Uma regra corta a soma antes de a fazeres: verificação a 0 chumba tudo.

Frequência 2 e dor 2 num processo cuja decisão sai sem ninguém a ver dá um sistema que produz decisões erradas mais depressa do que tu, e sem ninguém dar por isso. É o caso mais comum de automação arrependida que encontro, e a soma alta é precisamente o que o disfarça.

O eixo que saiu

O terceiro eixo não era este. Era Determinismo, e perguntava outra coisa: se cada caso pede julgamento, não automatizes.

Foi aí que a régua me chumbou. Escrever um carrossel é julgamento do princípio ao fim — escolher o ângulo, cortar o slide que não paga a linha, decidir se a promessa da capa se aguenta. Julgamento puro, zero em Determinismo, veto. A régua reprovava a automação que eu tinha acabado de construir e que estava a funcionar à minha frente.

Podia ter defendido a régua. O que aconteceu foi perceber que ela estava a descrever as ferramentas de há cinco anos, quando automatizar era escrever um script e um script só sabe fazer o que é sempre igual. Um agente com o contexto certo trata bem de casos que pedem julgamento. Isso mudou, e a régua não tinha mudado com isso.

O que continua verdadeiro é o outro lado. O julgamento automatiza-se hoje; a responsabilidade pela decisão não se automatiza nunca, e é ela que o eixo novo protege. Quando não consegues apanhar a decisão errada antes de ela contar, o que te falta é o sistema de revisão. Constrói esse primeiro.

A conta que decidiu a minha

Ata da reunião semanal. Frequência 1, porque é uma vez por semana. Dor 2, porque a da semana passada ainda não saiu. Verificação 2, porque leio a ata inteira antes de ela ir para alguém.

Cinco em seis. Ficou à frente de tudo o resto, incluindo coisas que me irritavam mais e pontuavam menos.

O limiar honesto, que quase ninguém mede

A automação só valeu a pena quando o tempo que poupa por mês passa o tempo que gastas a mantê-la. São duas medições, e a segunda é a que ninguém faz.

Mede as duas no primeiro mês. Se não medires, o que tens é uma opinião sobre uma coisa que era suposto ter números.