Escrita
Quem escreveu não pode ser quem revê
Pedir a um agente que reveja o que ele próprio acabou de escrever dá quase sempre o mesmo resultado: aprovação com dois elogios e uma sugestão cosmética. Durante algum tempo pensei que era problema de instrução — que bastava ser mais duro no pedido. Não é.
Porque é que o prompt duro não chega
A conversa inteira está na janela. Lá dentro estão as razões pelas quais cada escolha foi feita, as alternativas que já foram descartadas, e o acordo implícito de que aquilo é bom. Quando se pede a revisão, o modelo não avalia o texto — avalia o texto mais toda a justificação que o acompanha. E a justificação é convincente, porque foi escrita para convencer.
É o mesmo motivo pelo qual não revemos bem o nosso próprio código: não lemos o que está escrito, lemos o que quisemos escrever.
Um revisor que conhece as intenções deixa de avaliar o resultado.
O que passei a fazer
A revisão passou a correr num subagente com contexto limpo, e a regra de entrada é dura: ele recebe o caminho do ficheiro, e mais nada. Não recebe a conversa, não recebe o briefing, não recebe as versões anteriores. Abre o ficheiro como quem chega de fora, porque efectivamente chegou.
Além do ficheiro, recebe uma coisa: o documento contra o qual deve julgar. No meu caso é o posicionamento e as regras de voz da marca. O trabalho dele é confrontar um com o outro e devolver objeções.
A segunda regra é mais importante do que parece: o revisor nunca aprova. Não tem "aprovado" no vocabulário. Devolve o que está mal, ou devolve que não encontrou nada — e quem decide sou eu. Um agente com poder de aprovar acaba a aprovar, porque aprovar é a saída barata.
Três revisores, três perguntas diferentes
Depois de perceber que funcionava, dividi por especialidade, porque misturar as perguntas dilui todas:
- Voz — isto soa a mim, ou soa a texto genérico? Julga contra o documento de posicionamento.
- Factos — cada afirmação verificável aguenta-se contra a fonte primária? Vai buscá-la na hora, e não cita de memória, porque citar de memória é a via exata pela qual entra informação falsa.
- Argumento — a tese arrisca alguma coisa, ou é consenso disfarçado? Este devolve o contra-argumento mais forte que encontrar.
Cada um corre isolado dos outros. Se corressem juntos, o primeiro veredicto contaminava os seguintes — que é o problema original a voltar por outra porta.
O que isto custa
Custa tempo de execução e custa tokens, porque o subagente tem de ler do zero aquilo que o agente principal já tinha lido. Não vale a pena para tudo. Vale a pena quando o custo de publicar uma coisa errada é maior do que o custo de a rever duas vezes — no meu caso, qualquer peça que saia com o meu nome.
E vale por uma razão que não tem nada de técnico: quando o revisor não sabe o que eu queria dizer, o que ele lê é o que lá está. Que é exatamente o que vai acontecer a quem abrir a página.